Chamada para edição Dossiê n. 40 - Comunicação, Economia Criativa e Mundo do Trabalho: precarização, plataformas e novas narrativas do trabalhar

2026-10-06

Editoras responsáveis:
Profa. Dra. Patrícia Medeiros de Lima (UCB)
Profa. Dra. Joana Martins Contino (ESPM Rio)

Data limite para submissão: 01 de agosto de 2027.
Período de avaliação: 02 de agosto a 02 de novembro de 2027.
Previsão de publicação da edição: dezembro de 2027.

As transformações do mundo do trabalho nas últimas décadas atravessam de modo decisivo o campo da Comunicação. A ascensão da economia criativa como eixo estratégico de desenvolvimento, associada à plataformização das relações de trabalho e à emergência de novas figuras profissionais (criadores de conteúdo, influenciadores, freelancers, microempreendedores), reconfigura tanto as práticas quanto os discursos sobre o trabalhar contemporâneo. Nesse cenário, comunicar tornou-se, também, trabalhar: produzir conteúdo, construir audiência e gerir a própria imagem convertem-se em atividades econômicas, ao mesmo tempo criativas e precarizadas. Esta chamada para a Revista Esferas propõe reunir reflexões, análises e investigações situadas na interseção entre Comunicação, Economia Criativa e Mundo do Trabalho.

A noção de economia criativa ganhou centralidade a partir do final da década de 1990, com o mapeamento das indústrias criativas promovido pelo governo britânico (DCMS, 1998) e com as formulações de John Howkins (2001) e Richard Florida (2002), que associaram criatividade, propriedade intelectual e desenvolvimento econômico. No Brasil, o conceito foi incorporado às políticas culturais com a criação da Secretaria da Economia Criativa no Ministério da Cultura, em 2011, e vem sendo objeto de esforços de pesquisa voltados a dimensionar o setor e compreender suas dinâmicas territoriais. Exemplo disso é o Panorama da Economia Criativa no Distrito Federal (Kieling; Dravet; Marques, 2022), desenvolvido por pesquisadores da Universidade Católica de Brasília, que buscou conhecer as atividades criativas do Distrito Federal, identificar habilidades e ocupações por região e mapear a organização da produção por setor. A partir de uma proposta teórico-metodológica própria, representada em círculos dinâmicos, o estudo estimou que a economia criativa respondeu por 3,5% do PIB distrital em 2022. Na mesma direção, pesquisadores da ESPM Rio desenvolveram o Índice de Desenvolvimento Potencial da Economia Criativa – IDPEC (ESPM, s.d.), índice composto de dados secundários que estima o potencial de desenvolvimento de um território por meio da economia criativa, organizado em três dimensões: capacidades humanas, atratividade e conectividade espacial, e ambiente cultural e empreendedorismo criativo. Ao lado desses esforços de mensuração, a promessa de autonomia, realização pessoal e desenvolvimento territorial associada ao trabalho criativo passou a conviver com uma literatura crítica que evidencia sua face precária, marcada pela instabilidade, pela autoexploração e pela informalidade, como demonstram os estudos de David Hesmondhalgh e Sarah Baker (2011) e de Angela McRobbie (2016). Nessa perspectiva, a noção de economia das trocas simbólicas, formulada por Pierre Bourdieu (2004), contribui para compreender como, nos campos da produção cultural, o valor se constitui também por meio de prestígio, reconhecimento e legitimidade, o que ajuda a explicar a disposição de trabalhadores criativos a aceitar condições precárias em troca de visibilidade e reputação.

Essa tensão se aprofunda com a plataformização, compreendida por Thomas Poell, David Nieborg e José van Dijck (2020) como a penetração das infraestruturas, dos processos econômicos e das estruturas governamentais das plataformas digitais em diferentes setores da vida social. No campo do trabalho, pesquisadores brasileiros como Ricardo Antunes (2018; 2020), Ludmila Costhek Abílio (2019) e Rafael Grohmann (2020) têm analisado a uberização e a plataformização como processos que transferem riscos e custos aos trabalhadores, ao mesmo tempo em que os submetem a formas algorítmicas de gestão e controle. Essas dinâmicas, contudo, não atingem os trabalhadores de modo homogêneo: marcadores de gênero, raça e território condicionam o acesso às oportunidades, a remuneração e a exposição aos riscos no trabalho criativo e de plataforma.

Do ponto de vista discursivo, as narrativas midiáticas sobre empreendedorismo desempenham papel decisivo na naturalização dessas dinâmicas. A figura do "empresário de si mesmo", analisada por Michel Foucault em Nascimento da biopolítica, e a racionalidade neoliberal descrita por Pierre Dardot e Christian Laval (2016), que converte o sujeito em empresa, ajudam a compreender a difusão de discursos que celebram a formalização via MEI, o "empreendedorismo de si" e o trabalho por conta própria. A esse repertório somam-se as investigações de Brooke Erin Duffy (2017) sobre o trabalho aspiracional de criadores de conteúdo, que investem tempo e recursos na expectativa, nem sempre realizada, de reconhecimento e remuneração.

Isso posto, o dossiê Comunicação, Economia Criativa e Mundo do Trabalho convida pesquisadoras e pesquisadores das áreas de Comunicação, Economia, Sociologia do Trabalho, Administração, Políticas Públicas e campos afins a submeterem artigos, ensaios e relatos de pesquisa que reflitam sobre as interseções entre esses campos, a partir de perspectivas teóricas e metodológicas plurais. Interessam contribuições que investiguem como narrativas midiáticas, políticas públicas, plataformas digitais e práticas de trabalho criativo se articulam, se tensionam e se transformam mutuamente, seja no fortalecimento de novas formas de autonomia e criação, seja na naturalização de dinâmicas de precarização e informalidade. Valorizam-se abordagens inter e transdisciplinares, bem como estudos empíricos que tomem como objeto diferentes territórios, segmentos e sujeitos do trabalho criativo.

Eixos temáticos sugeridos:

  • Fundamentos teóricos e epistemológicos da Economia Criativa
  • Economia das trocas simbólicas: capital simbólico, reconhecimento e valor no trabalho criativo
  • Sociologia do Trabalho e suas interlocuções com a Comunicação
  • Economia criativa, políticas públicas e desenvolvimento territorial
  • Plataformização do trabalho e economia de plataforma (gig economy, uberização)
  • Trabalho criativo, cultural e digital: autonomia, precarização e informalidade
  • Gênero, raça e desigualdades no trabalho criativo e de plataforma
  • Narrativas midiáticas sobre empreendedorismo, MEI e "empreendedorismo de si"
  • Criadores de conteúdo, influenciadores e novas profissões da comunicação
  • Comunicação organizacional e gestão do trabalho em contextos criativos
  • Metodologias e dados para o estudo do empreendedorismo e trabalho criativo

 

REFERÊNCIAS

ABILIO, Ludmila Costhek. Uberização: do empreendedorismo para o autogerenciamento subordinado. Psicoperspectivas, Valparaíso, v. 18, n. 3, 2019. DOI: https://doi.org/10.5027/psicoperspectivas-vol18-issue3-fulltext-1674.

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

ANTUNES, Ricardo (org.). Uberização, trabalho digital e indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. Apresentação e organização de Sergio Miceli. São Paulo: Perspectiva, 2004.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

DEPARTMENT FOR CULTURE, MEDIA AND SPORT (DCMS). Creative industries mapping documents 1998. London: DCMS, 1998. Disponível em: https://www.gov.uk/government/publications/creative-industries-mapping-documents-1998. Acesso em: 5 out. 2026.

DUFFY, Brooke Erin. (Not) getting paid to do what you love: gender, social media, and aspirational work. New Haven: Yale University Press, 2017.

ESPM. Índice de Desenvolvimento Potencial da Economia Criativa (IDPEC). Rio de Janeiro: ESPM, [20--]. Disponível em: https://indicedaeconomiacriativa.espm.edu.br/. Acesso em: 5 out. 2026.

FLORIDA, Richard. The rise of the creative class: and how it’s transforming work, leisure, community and everyday life. New York: Basic Books, 2002.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

GROHMANN, Rafael. Plataformização do trabalho: características e alternativas. In: ANTUNES, Ricardo (org.). Uberização, trabalho digital e indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020.

HESMONDHALGH, David; BAKER, Sarah. Creative labour: media work in three cultural industries. London: Routledge, 2011.

HOWKINS, John. The creative economy: how people make money from ideas. London: Allen Lane, 2001.

KIELING, Alexandre; DRAVET, Florence; MARQUES FILHO, Alberto (org.). Panorama da economia criativa do Distrito Federal: relatório parcial de pesquisa: fase 1. Brasília, DF: Universidade Católica de Brasília, 2022.

MCROBBIE, Angela. Be creative: making a living in the new culture industries. Cambridge: Polity Press, 2016.

POELL, Thomas; NIEBORG, David; VAN DIJCK, José. Plataformização. Tradução de Rafael Grohmann. Fronteiras: estudos midiáticos, São Leopoldo, v. 22, n. 1, p. 2-10, jan./abr. 2020. DOI: https://doi.org/10.4013/fem.2020.221.01.