n. 14 (2019)

Democracia Digital

Apresentação

A popularização da internet como plataforma, ferramenta e ambiência para práticas e instituições políticas, somada ao crescente poder do processamento de dados em uma sociedade cada vez mais datificada, compõem as bases que inspiraram esta edição. As democracias contemporâneas vêm incorporando elementos e se adaptando ao modus operandi da comunicação digital, propiciando novas problemáticas ou ampliando outras antigas, reeditadas sob nova roupagem. Como pano de fundo está a importância dos dados nesses processos políticos, culturais e sociais.

Abordagens que envolvem campanhas eleitorais, mobilizações políticas, ativismo, transparência, metodologias de pesquisa, participação e inteligência artificial são as alguns dos temas que atravessam o conjunto de textos deste dossiê. No artigo "O Brasil vai virar Venezuela: medo, memes e enquadramentos emocionais no WhatsApp pró-Bolsonaro", Viktor Chagas, Michelle Modesto e Dandara Magalhães analisaram um robusto volume de dados baseados em mais de 11 mil mensagens em 158 grupos de WhatsApp durante as eleições presidenciais de 2019, observando como o fenômeno dos memes têm sido usados em estratégias de campanhas negativas. Nina Fernandes dos Santos e Maria Paula Almada, no texto "Midiativismo em rede: Twitter e as críticas aos meios de comunicação tradicionais em um sistema híbrido de comunicação", trataram do importante papel de mídias sociais no ativismo no campo comunicacional, tomando como contexto as grandes manifestações de 2013, com base no estudo de mais de 6 mil tweets do período. Se o volume e a coleta de dados para análise de novas práticas comunicacionais e informativas são um desafio hoje, Marcelo Alves, Camilla Tavares e Afonso de Albuquerque trazem uma significativa contribuição prática e metodológica sobre a análise de redes sociais, no texto “Datificação e redes na Comunicação Política: mapeamento de redes e fluxos no Facebook”. Por outro lado, o uso de dados também se esbarra em questões éticas e legais. Neste sentido, o artigo "Dilemas entre transparência e proteção de dados: as requisições dos órgãos de controle e o sigilo estatístico" de Mariana Martins de Carvalho e Rodolfo de Carvalho Cabral, demonstra como informações estatísticas sob tutela do Estado requerem proteção contra determinadas pressões (inclusive de órgãos do próprio governo) que podem significar apropriações desvirtuadas e desviantes, isto é, distorções quanto às reais finalidades dos dados, colocando em risco a sua própria efetividade no longo prazo em sua função original. Em uma discussão mais conceitual, o artigo "A Esfera Pública em rede e a ressignificação do espaço público na visão de Habermas", de Amanda Nunes Lopes Espiñeira Lemos e Ana Cláudia Farranha Santana, aborda os importantes impactos na noção de publicidade no atual contexto de intensos fluxos informativos digitais. Esta edição também traz o artigo “Crowdlaw: Inteligência Coletiva e Processos Legislativos” de Beth Sinome Noveck, reconhecida pesquisadora da New York University e diretora do GovLab, no qual aborda como sistemas digitais, práticas colaborativas e inteligência artificial podem ser úteis para qualificar processos mais participativos de elaboração de leis e políticas públicas, fortalecendo-as.

Nos artigos livres, “Mídia e mobilidade urbana: abordagens das indenizações a motociclistas acidentados”, de Cássia Lobão Assis, trata de estratégias de telejornais em relação a indenizações de acidentes. “Precisão e credibilidade: agências independentes de jornalismo e o uso do big data”, de Leonel Azevedo de Aguiar e Claudia Rodrigues, abordam o impacto do big data nas agências online de jornalismo. Já “RA e a experiência de marca: o domínio do ícone”, de João Batista Freitas Cardoso e Daniel Bento Paletta, trabalha a realidade virtual como possibilidade para a propaganda. Por fim, no ensaio da sessão Visualidades, Gabriela Freitas trabalha tempo, memória e Borges em “As aporias do tempo borgeano”.

Esperamos que este dossiê seja útil para pesquisadores, estudantes, gestores e atores políticos interessados em pensar criticamente como a dinâmica dos dados tem se relacionado com a concepção de democracia digital no atual contexto de intensa datificação da vida contemporânea.

Editores para esta edição:

Sivaldo Pereira da Silva (UnB/INCT-DD)
Samuel Barros (UFRB/INCT-DD)
Christiana Freitas (UnB/INCT-DD)

Editores-responsáveis:

Florence Dravet (UCB)
Ciro Inácio Marcondes (UCB)

Sumário

Dossiê Democracia Digital

Viktor Chagas, Michelle Modesto, Dandara Magalhães
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1-17
Nina Fernandes dos Santos, Maria Paula Almada
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18-36
Marcelo Alves, Camilla Tavares, Afonso de Albquerque
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37-53
Mariana Martins de Carvalho, Rodolfo de Carvalho Cabral
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54-67
Amanda Nunes Lopes Espiñeira Lemos, Ana Cláudia Farranha Santana
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68-79
Beth Simone Noveck
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80-98

Artigos livres

Cássia Lobão Assis
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99-108
Leonel Azevedo de Aguiar, Claudia Rodrigues
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109-120
João Batista Freitas Cardoso, Daniel Bento Paletta
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121-128

Visualidades

Gabriela Freitas
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129-139