n. 15 (2019)

Comunicação e Alimentação

Apresentação

Alimentação é linguagem. A comida expressa nosso pensamento de uma maneira que frequentemente não percebemos, já que comer é uma atividade que se confunde com nossa própria existência. Assim como a linguagem, a forma como produzimos, cozinhamos, vendemos e consumimos alimentos é estruturada por regras. Basta um ruído - seja uma viagem a um país distante, seja um utensílio a mais ou a menos na mesa - e percebemos como nossa alimentação é extremamente codificada. 

Se a comida é linguagem, ela comunica. Ela oferece mensagens vívidas sobre nossa compreensão de mundo. As plantas alimentícias que escolhemos produzir, por exemplo, falam sobre um passado colonial, ou o questionam. A decisão de pautar crianças como consumidoras ou agrotóxicos como insumos agroalimentares comunicam a comida como negócio. O prato vazio em um mundo que joga comida no lixo conta uma história de injustiça. Para aqueles que podem escolher, a decisão entre hipermercados ou feiras, animais ou plantas, produtos locais ou importados, uísque ou cachaça, leite ou kefir, café ou chá ou kombucha, cozinha ou ifood, nos fornece dados valiosos para compreensão do outro.

A experiência humana com os alimentos pode ser compreendida por suas bases biológicas e culturais. O que isso significa? Significa que comer expressa tanto um imperativo fisiológico da espécie, quanto um modo de fazer regido por códigos que criamos na nossa jornada empírica de descoberta da comida. São regras que revelam categorias mágicas, religiosas, emocionais, econômicas e políticas que mediaram e continuam mediando nossa relação com o alimento, individualmente ou como grupo. A comida é um sistema de comunicação porque construímos e partilhamos significados com ela e através dela. 

Vivemos hoje em um planeta onde a comida é uma fonte inesgotável de debates: seja pela fome, que volta a amedrontar corpos e mentes de adultos e crianças em diversas partes do mundo; seja pela íntima relação dos padrões alimentares atuais com o avanço da carga global de doenças; seja pelo impacto gerado pelo sistema alimentar neoliberal no avanço das mudanças climáticas; seja pelo despertar do sofrimento que imputamos a outros animais nas cadeias globais de produção. Se a comida é um sistema de comunicação, que história ela conta sobre nós hoje? O que pensamos sobre comida? O dossiê Comunicação e Alimentação pretende colaborar com esse debate a partir de três eixos que apresentamos a seguir.

No primeiro, apontamos a comida como sistema de comunicação porque ela é indicadora de padrões e ruídos culturais. Nessa categoria estão os textos de Joana Pellerano, sobre consumo alimentar como meio de comunicação na convivência intercultural de jovens brasileiros; de Rebekka Fernandes e Alex Galeno, onde discutem a formação de comunidades de exaltação a transtornos do comportamento alimentar no Twitter; de Julie Cavignac e de Chayenne Goes, Rúbia Gisele Tramontin Mascarenhas e Mirna de Lima Medeiros, que problematizam o potencial do turismo gastronômico na desconstrução de estereótipos culturais regionais. Ainda neste eixo, o artigo de Rita Liberato mostra como a ferramenta do vídeo participativo pode ser útil na tarefa comunicar e corrigir injustiças sociais geradas por ruídos no campo da Segurança Alimentar e Nutricional.

No segundo eixo, a comida é comunicação porque demarca um mercado do gosto, onde se exige do comensal tanto letramento cultural para o consumo, como a possibilidade de acesso material ao bem alimentar. O correto uso do código, seja no jornalismo gastronômico, seja no universo das cervejas ou dos cafés especiais, sinalizam os iniciados na escola do gosto. Esse é o tema de interesse nos trabalhos de Renata Maria do Amaral, Bruna Gewehr e Tainá Bacellar Zaneti, e de Lucas Teixeira e Tânia Hoff, respectivamente. 

Construímos e partilhamos significados com a comida e através dela. O mesmo acontece com a arte. A arte expressa o humano em sua complexidade. É uma linguagem que se distancia de uma simples descrição do que somos para falar sobre nosso inconsciente, desejos, equívocos, incompletudes e afetos. Por isso, a terceira sessão do dossiê compreende que obras de arte oferecem material potente para os estudos de comida e comunicação. Cristine Maccarone e Luiz Antônio Vadico analisam o papel dos alimentos na caracterização das personagens no filme Sabotage de Alfred Hitchcock; ainda no cinema, Alexandre Kieling e Natália Lázaro estudam o documentário Super Size me para nos explicar como documentários convencem o  público sobre a veracidade de um recorte da realidade; Tatiana Lunardelli e Eliane Morelli Abrahão refletem sobre o valor cultural dos livros de cozinha e, por fim, juntamente com Josimey Costa, convidamos vocês para se sentarem à mesa com Marcel Proust, em um banquete que vai além de suas madeleines

A esmerada tradução de Guilherme Lobão do texto Acerca da correspondência entre percepção visual e gustativa, de Nicola Perullo, encerra o número com uma reflexão importante sobre a alimentação na era das imagens: a imagem guia, define, determina e insinua o gosto. Se nossas escolhas alimentares têm um sentido político, com efeitos partilhados em rede, qual o compromisso ético que deve perpassar a produção de imagens alimentares hoje? 

Na seção Visualidades, Ângela Almeida brinda o dossiê com fotografias de Plantas Alimentícias Não Convencionais e aponta o potencial das imagens fotográficas para dar visibilidade ao nativo.

O dossiê que está na sua tela é um convite para ampliarmos nosso olhar sobre esse debate de interesse coletivo. Ele reúne profissionais da Nutrição, Comunicação Social, Sociologia, Antropologia, Filosofia, Geografia, Gastronomia, na tentativa de construir novos caminhos de enfrentamento para nossos não tão novos e novíssimos problemas ligados à alimentação.  

O que nossa comida comunica afinal? Essa é uma pergunta que pode te levar até à casa materna, à última refeição ou ao indigesto noticiário diário. Queremos falar sobre esse último ponto. Nós, brasileiros e brasileiras, enfrentamos um momento de exposição internacional, que tem a ver com a comida que produzimos e comemos. O veneno chega pelo ar, pela terra e também pelo mar. Mais do que nunca, o veneno está na mesa. Se a comida comunica o que pensamos, o centro de gestão do nosso pensamento nacional está doente, contaminado.  

Certamente, esse cenário não expressa o pensamento da maioria dos que fazem essa nação. O tóxico ao redor e dentro de nós é uma grande perturbação, motivo de conversas cotidianas com nossos amigos, pesquisas, pesadelos e adoecimento coletivo. A comida é um bom negócio para muito poucos. Por isso, essas vozes precisam aparecer e imprimir seu discurso na história. O que essa comida comunica não nos representa! Já podemos perceber esse levante de vozes em curso. O Banquetaço 2019, em resposta à extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, foi um aperitivo da nossa indignação digerida na forma de desejo de soberania popular. 

Esperamos que esse dossiê possa continuar esse trabalho, de articulação de uma inteligência coletiva preocupada em participar da construção de uma narrativa que nos reconecte com nossa humanidade, com todas as formas de vida e com a terra. Precisamos lembrar que, mesmo em nossa diversidade, somos um. 

Editores para esta edição:

Michelle Cristine Medeiros Jacob (UFRN)

Editores-responsáveis:

Florence Dravet (UCB)
Ciro Inácio Marcondes (UCB)

Sumário

Dossiê Comunicação e Alimentação

Joana Pellerano
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1-10
Rebekka Fernandes Dantas, Alex Galeno
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11-19
Julie Cavignac
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20-32
Chayenne Goes, Rúbia Gisele Tramontin Mascarenhas, Mirna de Lima Medeiros
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33-45
Rita Simone Barbosa Liberato
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46-55
Renata Maria do Amaral
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56-66
Bruna Gewehr, Tainá Bacellar Zaneti
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67-77
Lucas de Vasconcelos Teixeira, Tânia Márcia Cezar Hoff
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78-89
Cristine Maccarone, Luiz Antônio Vadico
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90-97
Natália Lázaro Roncador, Alexandre Kieling
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98-111
Eliane Morelli Abrahão, Tatiana Lunardelli
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112-121
Michelle Cristine Medeiros Jacob, Josimey Costa da Silva
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122-131
Guilherme Lobão de Queiroz, Nicola Perullo
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132-142

Visualidades

Angela Almeida Almeida
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143-149