n. 16 (2019)

Novas linguagens do audiovisual

APRESENTAÇÃO

Ao lançarmos a temática deste dossiê nos perguntávamos sobre a reconfiguração dos usos políticos do audiovisual contemporâneo, diante da ampliação de acesso às técnicas de realização e circulação da imagem. Nos perguntávamos ainda sobre como ampliar as fronteiras da linguagem audiovisual em que todo recurso parece estar ao alcance das mãos e toda possibilidade de experimentação estética, esgotada. A resposta vem de forma pungente e mostra que a imagem audiovisual está mais viva do que nunca; que a experimentação e o engajamento não se abatem frente à suposta onipresença de técnicas a princípio consideradas pasteurizadas e ao forte desalento político. Há sempre uma brecha para a subversão e para a resistência que provoca as rupturas necessárias ao movimento intrínseco a toda forma de linguagem.

 

No artigo de Benjamin Léon “Ruins of the industrial landscape in Gordon Matta-Clark's work: a critical entropy?”, conhecemos a postura crítica do artista Gordon Matta-Clark ao realizar a documentação audiovisual de suas efêmeras instalações e intervenções urbanas em paisagens industriais abandonadas da cidade de Nova Iorque, questionando a ocupação destes espaços e promovendo o que ele chama de Anarquitetura. A postura crítica em relação às cidades industriais também é tema presente no artigo de Raquel Schefer “A trama do colonial Fordlândia Malaise, de Susana de Sousa Dias”. Numa cidade industrial utópica fictícia, Fordlândia, fundada por Henry Ford no meio da Amazônia, a cineasta Susana de Sousa Dias levanta questões relacionadas ao mal-estar do processo de colonização na América Latina e seus resquícios ainda presentes nessas sociedades, ressaltando as catástrofes ambientais e a tensão entre dispositivos e modelos de representação reguladores e formas estéticas emancipatórias.

 

Ao pensar as possibilidades de experimentação no audiovisual, Sérgio Dias Branco traz, em seu artigo “Melodias do Reuso: A Reutilização de Imagens nos Vídeos Musicais”, uma discussão acerca da reutilização das imagens e as operações necessárias para sua realização. As experimentações de linguagem também se voltam às ampliações da partilha do visível por meio de obras executadas por sujeitos antes excluídos dos processos de produção audiovisual. Luciana Oliveira, Ester Antonieta e Eduardo Antônio de Jesus refletem sobre onde e como cineastas negros e negras afrontam os problemas de racismo no Brasil e resistem a ele, construindo uma experiência outra do corpo negro em seu artigo “Corpo negro na imagem: à escuta de Zózimo Bulbul e de Yasmin Thayná”. Nesta perspectiva da partilha do sensível e do aumento da visibilidade do indivíduo antes anônimo também se apresenta o artigo “Quando o céu desaba e as imagens falam: experiências visuais em uma exposição índia”, de Susana Dobal, ao analisar as imagens da exposição A queda do céu em diálogo com o livro homônimo à exposição, de Davi Kopenawa e Bruce Albert.

 

No artigo “O macaco com a câmera na mão: montagem anarquívica e devir-animal em Leo Pyrata”, de Marcelo Ribeiro, discute-se o devir-animal como prática criativa nos principais filmes de curta metragem de Leo Pyrata, explorando as fronteiras do cinema experimental e da videoarte pela montagem. Um processo anarquívico parece ocorrer também nos filmes de Ken Jacobs analisados por Pablo Gonçalo no artigo: “Ken Jacobs: a perversão dos arquivos e as figuras que observam os espectadores”. O autor chama de perversão dos arquivos o método criativo do cineasta que experimenta com a materialidade fílmica, gerando um efeito poético de anuviamento do olhar entre diferentes mídias, levantando dúvidas e especulações. Os experimentos entre diferentes mídias e linguagens também está presente no artista Nuno Ramos, que transita entre pintura, instalação, escrita, vídeo, música, teatro e internet. As obras analisadas por Juliana Garzillo Cavancanti e Patricia Moran no artigo “Nuno Ramos em performance: circularidade entre meios” destacam tanto suas constituições política quanto formal e de conteúdo. Ainda no âmbito das experimentações estéticas com a linguagem audiovisual, Fabiano Pereira de Souza e Jamer Guterres de Melo destacam a utilização dos recursos 3D no cinema, especificamente em documentários, proporcionando novas experiências sensoriais em seu artigo “Documentário 3D – Os efeitos da volumetria no registro das artes”.

 

Por fim, numa perspectiva de circulação midiática e ativista, ou melhor, de net-ativismo audiovisual e digital, como ressalta o autor do artigo “Estudo animal pós-colonial de mudanças climáticas em Para onde foram as andorinhas?”, Simão Farias Almeida, destacamos a abordagem teórica pós-colonial para analisar um documentário sobre os impactos do aquecimento global em ecossistemas de povos habitantes do Parque Indígena do Xingu e sua relação com usos de dispositivos e plataformas colaborativas no protagonismo e monitoramento de terras indígenas. Ainda sobre o impacto na linguagem audiovisual em plataformas digitais e em rede, apresenta-se o artigo “Memes na TV Social: uma proposta de taxonomia”, de Melissa Ribeiro de Almeida, cujo objetivo é propor uma taxonomia de memes resultantes da interatividade em tempo real entre telespectadores gerada pela prática da TV Social. Sobre a questão da interatividade também se volta o artigo “Interações programáticas em 15 Milhões de Méritos, de Black Mirror”, de Conrado Moreira Mendes, procurando compreender como se constroem tais interações num contexto distópico e futurista de uma sociedade de vigilância, tal como sugerido no episódio analisado.

Esperamos, enfim, que este dossiê sirva para pesquisadores e estudantes como um vislumbre crítico acerca das possibilidades de ampliação das fronteiras estéticas, políticas e de linguagem do audiovisual no cenário contemporâneo.

Editores para esta edição:

Felipe Polydoro (UnB) e Gabriela Freitas (UnB)

Editores-responsáveis:

Florence Dravet (UCB) e Ciro Inácio Marcondes (UCB)

Sumário

Dossiê Novas Linguagens do Audiovisual

Benjamin Philippe Léon
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Raquel Schefer
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Sérgio Dias Branco
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Luciana de Oliveira, Ester Antonieta Santos, Eduardo Antônio de Jesus
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Marcelo R. S. Ribeiro
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Pablo Gonçalo Martins
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Juliana Garzillo Cavalcanti, Patricia Moran
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Fabiano Pereira de Souza, Jamer Guterres de Mello
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Simão Farias Almeida
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Melissa Ribeiro de Almeida
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Conrado Moreira Mendes
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Susana Madeira Jordan Dobal
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Artigos livres

Gustavo de Castro, Talita Fernandes
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Visualidades

Tatiana Terra
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