PREVENÇÃO DO ABANDONO NO 1.º ANO: APOIAR OS ESTUDANTES NA SUA ADAPTAÇÃO ACADÊMICA
Resumen
Mudanças recentes nos processos de ensino-aprendizagem destacam a centralidade do estudante na
forma como aprende e no seu sucesso acadêmico. Assume-se que aquilo que o estudante aprende
decorre menos daquilo que faz o professor e mais daquilo que faz o próprio estudante. Contudo, estas
mudanças podem favorecer os estudantes que ingressam no Ensino Superior com mais bases de
conhecimentos e com melhores estratégias de aprendizagem, o que nem sempre ocorre junto dos
estudantes provenientes de famílias menos favorecidas a nível socioeconómico e sociocultural. Neste
contexto, as instituições devem intervir preventivamente no desenvolvimento de competências que
ajudem esses estudantes a enfrentar com maior autonomia os desafios da sua adaptação, promovendo
o sucesso acadêmico, reduzindo as taxas de abandono que, para alguns estudantes, ocorre já no
decurso do 1.º ano do Ensino Superior.
Neste trabalho relata-se uma intervenção junto dos estudantes que ingressaram em dois cursos na área
da Educação, num total de 150 estudantes. Realizaram-se três sessões de uma hora com cada uma das
cinco turmas, ao longo do 1.º semestre: na primeira analisaram-se as expetativas iniciais dos
estudantes e as dificuldades antecipadas na sua adaptação; na segunda abordaram-se as vivências
acadêmicas no sentido da adaptação e satisfação dos estudantes; e na terceira analisaram-se os
métodos de estudo e a antecipação das classificações no final do 1.º semestre. As sessões foram
realizadas recorrendo a atividades especificamente concebidas e recorrendo a uma ferramenta digital
(Wooclap), facilitadora da interação entre os estudantes. A utilização desta ferramenta decorre do uso
generalizado do smartphone por parte dos estudantes e à existência de boas condições da internet nas
salas de aula; a sua utilização foi também útil por permitir a interação dos estudantes mantendo o
respeito pelas normas de distanciamento social impostas pela pandemia de COVID-19. Ilustrando
essa utilização, na primeira sessão os estudantes descreveram as suas experiências na transição para
o ES. Desta forma, as palavras e a sua frequência permitiram construir uma nuvem de palavras,
possibilitando a visualização imediata das exigências e dificuldades sentidas, assim como um diálogo
sobre os recursos pessoais e institucionais a mobilizar. As palavras e expressões mais mencionadas
que denotam um sentido positivo da transição foram: desafio, responsabilidade, crescimento ou
aventura. As expressões e palavras negativas foram menos numerosas, aliás muito semelhantes nas
cinco turmas, por exemplo medo, ansiedade ou isolamento. Ao longo das sessões foram recolhidos
dados através do Instrumento de Screening de Risco de Abandono do Ensino Superior, avaliando a
satisfação com a formação, a exaustão acadêmica e a intenção de abandono dos estudantes. Os
resultados apontam para bons níveis de satisfação com a formação que estavam a receber no Ensino
Superior, mas ainda assim, algum desgaste emocional devido ao volume e dificuldade das atividades
acadêmicas. Verificou-se reduzida intenção de abandono, o que poderá estar relacionado com a
própria implementação das sessões descritas. A realização das mesmas evidenciou a pertinência da
partilha conjunta das vivências emocionais e das dificuldades experienciadas que, por serem comuns,
facilitaram a partilha de estratégias de enfrentamento entre os estudantes. Reforça-se a importância
do estabelecimento de uma rede de suporte entre pares, facilitadas pela proximidade nas relações
interpessoais próximas entre colegas e com os professores. A realização de trabalhos de grupo dentro
e fora da sala é entendida pelos estudantes como oportunidade para o desenvolvimento das relações
e competências sociais. A consciência e partilha pelos estudantes de dificuldades presentes na sua
transição e adaptação ao Ensino Superior, assim como o levantamento de estratégias seguidas para
lidar e superar tais dificuldades, justifica a pertinência da intervenção realizada.
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