Chamada para o dossiê: AUTORIA NO DOCUMENTÁRIO (2023/1)

2022-01-16

A edição de número 26, do primeiro quadrimestre de 2023 contará com o dossiê "Autoria no Documentário", co-editado pelos colegas portugueses Sérgio Dias Branco e Luisa Neves Soares, da Universidade de Coimbra.

- Submissões: até 30/11/2022   - Data prevista para publicação: abril 2023     A noção de autoria e o próprio conceito de autor têm sido alvo de diversas conceções e interpretações, estando as primeiras teorizações relacionadas com a esfera das artes visuais e da tradição literária. No campo do cinema, as teorizações sobre autoria iniciadas por Alexandre Astruc em 1948 e que impulsionarão a politique des auteurs da década de 50 em França, convergem no desejo de atribuir um cariz autoral e artístico ao filme, assumindo um paralelismo com outros modelos artísticos como a pintura ou a literatura.

Esta linha de pensamento influenciou de forma determinante a criação cinematográfica, mas a ideia de autoria no cinema continua a na?o ser consensual ate? aos dias de hoje, seja pela implicac?a?o de um conjunto de pessoas no trabalho de criação artística e técnica de um filme, seja pela relac?a?o impli?cita com a audiência. Andrew Sarris em 1962 coloca a questa?o sobre quem e? realmente o autor de uma obra e de que modo essa autoria pode ser “medida”. Roland Barthes em 1968 e Michel Foucault em 1969 defendem uma separac?a?o clara entre obra e autor.

No campo do cinema de não-ficção, a figura do autor tem também sido alvo de diferentes posicionamentos críticos não convergentes que relacionam a presença ou ausência do diretor e conceitos como a subjetividade ou objetividade da obra fílmica produzida como fatores distintivos.

O filme documental parte da realidade para a interpretar e representar, situando-se num campo específico onde a mediação entre o mundo e a sua representação é operada por intermédio de escolhas, mais ou menos assumidas ou visíveis no plano da realização — uma visão do mundo, um ponto de vista, uma voz, tal como define Bill Nichols, com qualidades e características diversas, mas que traduz uma perspetiva do autor sobre o mundo e a sua história.

Será então nessa negociação entre subjetividade do autor e o mundo considerado objetivo onde residirá o campo do cinema documental que privilegia a presença do autor, encontrando caminhos díspares em tipologias, estilos e abordagens, mas convergente no posicionamento crítico do autor em relação ao que regista, interpreta e dá a ver a outrem. 

Mas como definir esta presença do autor? Se num filme de ficcão existe o controle total da situacão (cenários, atores, guião), no filme documental grande parte da ação desenrola-se, em muitos casos e à partida, sem qualquer ou pouca interferência do realizador — a realidade desenrola-se independentemente.

Seja como for, estamos a lidar com uma presença física que pode influenciar a ação, enquanto catalisadora de eventos ou situações ou que, de algum modo, pode ter um efeito nas reações do sujeito filmado. A auto-inscrição do autor pode operar-se a partir desta presença que interage com o mundo circundante. Pode também assumir um cariz conceptual e ensaístico, enquanto linguagem ou espaço de experimentação e criação artística em que a performatividade se traduz no recurso à narração, à montagem visual e sonora, entre outros elementos fílmicos.

O campo da autoria no cinema documental é, consequentemente, uma área para onde convergem diferentes tipos de abordagens e perspetivas sobre a criação fílmica, onde a mediação e a escolha do diretor refletem posicionamentos políticos, poéticos, autobiográficos ou ensaísticos tão diversos quanto o são os indivíduos.

Assim, esta chamada procura artigos que questionem criticamente como a presença de um autor poderá ser marcante ou determinante num filme que parte da realidade para o representar e problematizar, e de que modo as linguagens utilizadas para o fazer, mais ou menos convencionais, poderão ter relevância nesse posicionamento face à realidade.

As propostas enviadas poderão relacionar-se com os seguintes tópicos, entre outros:

- autoria no documentário;

- documentário na primeira pessoa;

- documentário como forma de arte;

- a auto-inscrição e auto-reflexividade no cinema;

- o filme-ensaio;

- performatividade e poética no documentário;

- autobiografias, diários fílmicos;

- narração e voz autoral;

- ponto de vista;

- representação e poder.

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Call for papers

Dossier “Authorship in Documentary”

Journal Esferas

Co-editors

Sérgio Dias Branco (UC)

Luísa Neves Soares (UC)

The notion of authorship and the very concept of author have been the subject of different conceptions and interpretations, with the first theories being related to the sphere of visual arts and literary tradition. In the field of cinema, the theorizations about authorship initiated by Alexandre Astruc in 1948 and which would boost the politique des auteurs (auteur theory, in English) of the 1950s in France, converge in the desire to attribute an authorial and artistic nature to the film, assuming a parallel with other artistic models such as painting or literature.

This line of thought had a decisive influence on cinematic creation, but the idea ofauthorship in cinema is still not consensual to this day, either because of the involvement of a group of people in the work of artistic and technical creation of a film, or because of the implicit relationship with the audience. Andrew Sarris in 1962 poses the question of who the author of a work really is and how that authorship can be “measured”. Roland Barthes in 1968 and Michel Foucault in 1969 defend a clear separation between work and author.

In the field of non-fiction cinema, the figure of the author has also been the target of different non-converging critical positions that relate the presence or absence of the director and concepts such as the subjectivity or objectivity of the produced film work as distinctive factors.

The documentary film starts from reality to interpret and represent it, placing itself in a specific field where the mediation between the world and its representation is operated through choices, more or less assumed or visible in the directing plane — a vision of the world, a point of view, a voice, as defined by Bill Nichols, with different qualities and characteristics, but which translates the author’s perspective on the world and its history.

It will then be in this negotiation between the author’s subjectivity and the world considered objective where the field of documentary cinema will reside, which privileges the presence of the author, finding different paths in typologies, styles and approaches, but converging in the author’s critical position in relation to what it records, interprets and presents to others.

But how to define this presence of the author? If in a fiction film there is total control of the situation (settings, actors, script), in documentary film much of the action takes place, in many cases and from the start, without any or little interference from the director — reality unfolds independently.

Be that as it may, we are dealing with a physical presence that can influence the action, as a catalyst for events or situations or that, in some way, can have an effect on the reactions of the filmed subject. The author’s self-inscription can operate from this presence that interacts with the surrounding world. It can also assume a conceptual and essayistic nature, as a language or space for experimentation and artistic creation in which performativity translates into the use of narration, visual and sound editing, among other film elements.

The field of authorship in documentary cinema is consequently an area where different types of approaches and perspectives on film creation converge, where mediation and the choice of director reflect political, poetic, autobiographical or essayistic positions as diverse as individuals.

Thus, this call seeks articles that critically question how the presence of an author can be striking or decisive in a film that starts from reality to represent and problematize it, and how the languages used to do so, more or less conventional, may have relevance in this positioning vis-à-vis reality.

Submitted proposals may relate to the following topics, among others:

- authorship in documentary;

- documentary in the first person;

- documentary as an art form;

- self-inscription and self-reflexivity in cinema;

- the essay-film;

- performativity and poetics in documentary;

- autobiographies, film diaries;

- narration and authorial voice;

- point of view;

- representation and power.

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Llamada de trabajos

Dossier “La autoría en el documental”

Revista Esferas

Co-editores

Sérgio Dias Branco (UC)

Luísa Neves Soares (UC)

La noción de autoría y el concepto de autor en si mismo han sido objeto de distintas concepciones e interpretaciones, estando las primeras teorizaciones relacionadas con la esfera de las artes visuales y de la tradición literaria. En el campo del cine, las teorizaciones sobre autoría empezadas por Alexandre Astruc en 1948 y que van a impulsar la politique des auteurs de la década de 50 en Francia convergen en la voluntad de atribuir un carácter autoral y artístico a la película, igual que en otros modelos artísticos, como la pintura o la literatura.

Esta línea de pensamiento influenció de forma determinante la creación cinematográfica, pero la idea de autoría en el cine sigue no siendo consensual hasta nuestros días, ya sea por implicar un grupo de personas en el trabajo de creación artística y técnica de una película, o por la relación implícita con la audiencia. Andrew Sarris en 1962 plantea la cuestión de quién es realmente el autor de una obra y cómo se puede medir esa autoría. Roland Barthes en 1968 y Michel Foucault en 1969 defienden una clara separación clara entre obra y autor.

En el campo del cine de no ficción, la figura del autor también ha sido objeto de diferentes planteamientos críticos no convergentes que relacionan la presencia o ausencia del director y conceptos como la subjetividad u objetividad de la obra fílmica producida en cuanto factores distintivos.

El documental parte de la realidad para interpretarla y representarla, situándose en un campo específico donde la mediación entre el mundo y su representación se opera a través de las decisiones, más o menos asumidas o visibles en la dirección, una visión del mundo, un punto de vista, una voz, como define Bill Nichols, con cualidades y características variadas, pero que traduce una perspectiva del autor sobre el mundo y su historia.

Así que será en esta negociación, entre la subjetividad del autor y el mundo, considerado objetivo, donde residirá el campo del cine documental que privilegia la presencia del autor, encontrando diferentes caminos en términos de tipología, estilo y enfoque, pero convergiendo en el planteamiento crítico del autor hacia el mundo y el entorno que eligió para interpretar y presentar a los demás.

Pero ¿cómo definir esta presencia del autor? Si en una película de ficción hay el control total de la situación (escenarios, actores, guión), en un documental la parte más grande de la acción se desarrolla, en muchos casos y en principio, sin cualquier interferencia del director — la realidad se desarrolla independientemente.

De todos modos, estamos ante una presencia física que puede influir en la acción, como catalizadora de hechos o situaciones o que, de alguna forma, puede influir en las reacciones del individuo filmado. La autoinscripción del autor puede operarse desde esta presencia que interactúa con el mundo al rededor. También puede asumir un carácter conceptual y ensayístico, como un lenguaje o espacio de experimentación y creación artística en el que la performatividad se traduce en el recurso a la narración, al montaje visual y sonoro, entre otros elementos fílmicos.

El campo de la autoría en el cine documental es, por todo eso, un ámbito en el que confluyen distintos tipos de enfoques y perspectivas sobre la creación fílmica, donde la mediación y la decisión del director reflejan posiciones políticas, poéticas, autobiográficas o ensayísticas en igual número que lo de individuos. 

Así que esta llamada busca artículos que discutan la forma cómo un autor puede marcar o determinar una película que parte de la realidad para representarla y problematizarla, y de que forma los lenguajes utilizados para hacerlo, de forma más o menos convencional, podrán ser relevantes en ese planteamiento frente a la realidad.

Las propuestas enviadas pueden estar relacionadas con los siguientes temas, entre otros:

- autoría en el documental;

- documental en primera persona;

- documental como forma de arte;

- la autoinscripción e autorreflexividad en el cine;

- el film-ensayo;

- performatividad y poética en el documental;

- el documental como forma de arte;

- autobiografías y diarios fílmicos;

- narración y voz autoral;

- puntos de vista;

- representación y poder.